Dia do Orgulho Lésbico: História, Resistência e Memória Viva.

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No Brasil, o dia 19 de agosto é marcado pelo Dia do Orgulho Lésbico. A data nasceu em memória ao episódio do Barraquinho, um bar em São Paulo frequentado por mulheres lésbicas, que em 1983 foi alvo de uma violenta invasão policial. Naquele dia, a resposta organizada dessas mulheres transformou a repressão em marco político, criando um símbolo de luta contra a lesbofobia e contra a violência que insistia em silenciar suas existências. Desde então, o 19 de agosto se tornou um lembrete de coragem, orgulho e resistência.

Mesmo eu não sendo lésbica, mas uma mulher bissexual, reconheço o peso e a importância desse dia. É uma data que transcende identidades individuais e que nos convoca a olhar para dentro da comunidade LGBTQIA+ de forma mais ampla, reconhecendo quem abriu caminhos para que outras vozes também pudessem se afirmar. Minha vivência é diferente, mas sei que a minha liberdade enquanto bissexual também foi pavimentada pelas lutas travadas por mulheres lésbicas.

Foi também com esta consciência que, no início deste ano, visitei a exposição “Histórias LGBTQIA+”, em cartaz no MASP. Mais do que uma mostra, ela se revelou um mergulho em narrativas que não apenas contam, mas também escrevem novas camadas de memória coletiva.

Logo ao entrar, senti a força de estar diante de obras vindas de diferentes partes do mundo e, sobretudo, de um Brasil que vai além do eixo Rio–São Paulo. Ver representações de lugares muitas vezes invisibilizados foi um lembrete de que a diversidade pulsa em cada canto do país, carregando vozes, cores e experiências únicas.

A curadoria me impressionou pela delicadeza e coragem. A cada sala, parecia que eu era convidada a atravessar corredores de histórias que me pertencem e, ao mesmo tempo, não me pertencem. Histórias de dor, mas também de afeto, de resistência e de celebração. Histórias que falam de mim, como mulher bissexual, e de tantas outras pessoas que compõem esse espectro tão amplo que chamamos de comunidade LGBTQIA+.

Outro ponto que me marcou foi perceber que o MASP ampliou o acesso à mostra oferecendo entrada gratuita às sextas-feiras. Esse gesto, que pode parecer pequeno, tem uma potência enorme: faz com que o artivismo — essa fusão de arte e ativismo — chegue mais longe, alcançando pessoas que talvez nunca tivessem a chance de entrar no museu. A democratização da arte também é uma forma de resistência.

E há um aspecto ainda mais simbólico: a exposição não se restringiu ao mês de junho, o chamado Mês do Orgulho. Ao estender a programação, o museu reforçou a mensagem de que nossas histórias não podem ser confinadas a um calendário comercial ou midiático. Nós existimos todos os dias. A visibilidade é um direito permanente, não uma concessão temporária.

Enquanto caminhava pelo espaço expositivo, pensei sobre a importância de contarmos as nossas próprias histórias. Porque, quando não o fazemos, alguém as conta por nós, e quase sempre nos distorce ou nos apaga. A exposição do MASP foi, para mim, um lembrete vivo de como a arte também é esse lugar de afirmação e encontro.

No contexto do Dia do Orgulho Lésbico, essa lembrança ganha ainda mais força. Como mulher bissexual, sinto que essa é uma data para honrar as trajetórias das mulheres lésbicas que enfrentaram (e seguem enfrentando) tanto silenciamento, exclusão e violência. É por causa da resistência delas que a comunidade LGBTQIA+ como um todo avança. O orgulho que celebramos hoje é resultado de muitas batalhas travadas ontem.

Sair daquela exposição me deixou com uma sensação dupla: de pertencimento e de responsabilidade. Pertencimento porque vi nas obras reflexos das minhas próprias cores, da minha identidade que muitas vezes também é alvo de questionamentos e estigmas. Responsabilidade porque sei que cabe a mim, e a cada um de nós, manter vivas essas histórias, apoiar e amplificar as vozes que tantas vezes foram e são silenciadas.

Que o 19 de agosto siga sendo um lembrete de que orgulho não é apenas uma palavra bonita: é um ato político, uma prática diária. É ocupar museus, ruas, telas e páginas com as nossas existências múltiplas. É reconhecer que visibilidade e memória caminham juntas. E é, acima de tudo, entender que a luta de uma parte da comunidade é também a luta de todos nós.